A Revista Palíndromo é uma "publicação do Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais do Centro de Artes da Universidade do Estado de Santa Catarina. Existe desde 2004, inicialmente na forma impressa e depois apenas em modo eletrônico a partir de 2009. Trata-se de uma revista digital sem fins lucrativos e concebida para ser um veículo de divulgação de pesquisas e produção de conhecimento, devidamente inscrita na plataforma do Sistema Eletrônico de Editoração de Revistas (SEER). Atualmente conta com qualis B1 em Artes/Música. Palíndromo é uma palavra de origem grega que indica o que pode ser lido numa direção e também no sentido inverso, ou seja, de trás para frente. Avessa à ordem e às normas pré-estabelecidas, a pesquisa em/ sobre artes visuais remete não apenas a normas negadas, como demanda constante revisão de dados, processos e reorganização de ideias, acolhendo o que pode ser pensado como transito e travessia que desconhece uma só direção. [...] Tem por missão promover a difusão da reflexão acerca das artes visuais, contemplando pesquisas em História, Teoria e Crítica da Arte, bem como Poéticas artísticas, por meio da publicação de artigos de excelência, inéditos, produzidos por pesquisadores nacionais e internacionais, contribuindo, desse modo, para o aprofundamento destes campos do saber" [1].
O volume 9, número 19, traz o seguinte editorial, escrito pela professora Dra. Sandra Ramalho de Oliveira [2]:
"O advento da organização deste número da Palíndromo, às vésperas de se
completar a segunda dezena de periódicos de uma revista jovem, já conceituada
pela CAPES como B1,embora tão nova quando a vida do PPG ao qual está vinculada,
o PPGAV da UDESC, foi surpreendido por uma grande discussão em torno da arte,
excessivamente eloquente, quando tantas vezes a arte precisou desta participação
enfática e não a obteve. Lamentavelmente. Parece mesmo que o atual estado de
coisas, entendido por muitos como radical, foi necessário, altamente necessário, para
que a sociedade se lembrasse de que existe arte e artistas, e de quais sejam suas
funções, entre outras, a de atuar como prenúncio de fatos e situações da sociedade,
isto entendido de vários modos.
Mas o presente embate, cuja virulência extrapola o ambiente e mesmo o campo
artístico, vem se travando dentro da bipolaridade geralmente leiga, no âmbito das
redes sociais e da tevê aberta, espaços inadequados, tanto quanto o da crítica gratuita
que esquece que vai à exposição e leva seus filhos quem quer, pois são espaços
privados.
Em suma, no cerne das discussões está a questão da censura e segmentos
diversos da sociedade vêm considerando as oposições de pensamento como
oposições políticas e morais. E o dualismo se exacerba. Arte transita entre todas as
angústias humanas, que em nada são duais.
A arte, com sua função de quebrar paradigmas, acidentes de significação, tem
se defrontado com a censura, ao longo dos séculos, sendo ela objeto de estudo de
diversos campos, com destaque para o Direito e a Filosofia, pois ambos se ocupam da
Ética, que desde tempos imemoriais envolve a Arte.
Nas Artes Visuais, a censura voltou-se contra obras hoje plenamente aceitas,
como “O Juízo Final”, de Michelangelo (1565), então considerada imoral, digna de
um bordel; ”Olympia”, de Manet (1865) que incomodou pelas características realistas
do nudismo que apresentava, considerado vulgar; “A Origem do Mundo”, do também
realista Courbet (1866), que mostra uma vulva em primeiro plano e escandalizou o
mundo. Na Literatura, a censura muito tem andado à espreita, bastando mencionar
dois fatos históricos, a publicação do Index Librorum Prohibitorum lista de livros
proibidos pela Igreja Católica, vigente de 1559 a 1966; e a grande queima de livros da
lista negra de Hitler (1933), que pretendia fazer uma “limpeza” na Literatura.
PALÍNDROMO
7 Palíndromo, v.9, n.19, p.06-08, setembro-dezembro 2017
Tão antiga quanto condenada, a existência de censura, expressa de modos
diversos, levou Flaubert a afirmar (1852) que “a censura, seja qual for, parece-me uma
monstruosidade, algo pior que o homicídio: o atentado contra o pensamento é um
crime de lesa-alma”. E, ainda antes dele, o poeta Petrarca (1304-1374) expressava em
um verso: “... tal, censurando os outros, censura a si mesmo”.
Há uma nova onda de puritanismo resultando em censura e assolando as Artes
Visuais no Brasil, enquanto que em Paris o Musée D’Orsay mobiliza o público com a
seguinte chamada: “traga seu filho para ver o nu”. E lá estão “Olympia” e “A origem do
mundo”. Até que ponto existem coincidências?
Em 15 de outubro, a Folha de São Paulo, publicou o artigo do Professor Jorge
Coli: “Por moralismo torpe, pessoas decidem eliminar a reflexão e neutralizar a
arte”. Embora dispense apresentações, não é demasiado lembrar que se trata de um
decano do estudo da arte no país e fora dele, referência obrigatória para todos da
área, figura respeitada pelas posições assumidas durante mais de três décadas acerca
da compreensão e da defesa da arte (por quê temos sempre que defende-la?). Na
mesma data, a ele solicitamos autorização para reapresentar seu texto, como modo
de introduzir o debate.
Após essa sessão especial, a sessão temática apresenta inicialmente um artigo
denominado “Episódio Queermuseu: reflexos do despreparo social em torno da arte”,
com objeto e posicionamento das autoras Alessandra Paula Rech e Danielle Schutz
explícitos no título. “As censuras contra Guevara vivo ou morto de Cláudio Tozzi”,
trabalho de Alexandre Pedro de Medeiros, afasta-se das polêmicas nacionais e aborda
o tema da censura sob outro aspecto. Ainda na sessão temática, Alessandra Azevedo
Jantorno assina o artigo “A arte e os discursos intolerantes que a cercam”, retomando
episódios recentes de censura a fatos, bem como suas distorções nas redes sociais,
refletindo sobre o papel do professor de arte em um tempo onde a censura se camufla,
pois censurar, às vezes, torna-se impossível.
Na sessão aberta, Sandra Mônica Figueiredo Oliveira apresenta um texto com
reflexões sobre o ensino de arte no ambiente universitário, o qual intitulou de “O ensino
superior artístico atual: perspectivas e dilemas”. Na sessão entrevista, a Palíndromo
recebeu duas contribuições: Eduarda Kuhnert entrevista Ícaro Lira, e denominou o
diálogo de “Políticas dos desvios na montagem visual de Ícaro Lira”, que nos traz a
aproximação com a poética desse artista contemporâneo. Na mesma sessão, Ana Sabiá
traz Afonso Medeiros, que se auto-intitula Arteamador, Artehistoriador, Arteeducador,
especialmente para conversar sobre posicionamentos que o tornaram fenômeno
midiático nas redes sociais, acerca do tema focado neste número da Palíndromo.
Na última sessão, intitulada ”Proposições, registros e relatos artísticos”, dois
trabalhos interagem com os textos exclusivamente verbais. O primeiro, intitulado
PALÍNDROMO
8 Palíndromo, v.9, n.19, p.06-08, setembro-dezembro 2017
“Sem Censura”, é homônimo ao de uma mostra realizada em Florianópolis, cujas
características e demais dados são apresentados por Anna Karoline de Moraes Silva,
a título de introduzir uma curadoria de imagens selecionadas especialmente para
dialogar com esta edição. Por último, Leonardo Motta Tavares apresenta um ensaio
visual ao qual deu o título de “Do papel das relações entre palavra e imagem nas
questões de gênero”.
Em meio às acusações de falso moralismo, hipocrisia e obscurantismo de um
lado, e de permissividade e estímulo a relações sexuais criminosas de outro, como o
professor de arte se conduz ao abordar tais assuntos com seus alunos? E os mediadores
de espaços culturais, estão preparados para “defender” a arte? E os teóricos, críticos,
curadores, historiadores, como podem contribuir para a discussão educacional,
considerando-se a escola não apenas um espaço de formação, mas igualmente, de
exercício da cidadania, o que só existe com liberdade?
Se é difícil a posição dos professores de arte, mais ainda o é a dos pais, dos
avós, dos formadores em geral das próximas gerações, diante da “pornografia” sem
censura que adentra aos nossos lares pela tevê ou pelas redes sociais, dando conta
de todas as transgressões éticas e morais não apenas de nossos governantes, mas
dos mais diversos segmentos de nossa sociedade. O que a arte propõe não são
fatos consumados. A arte quer apenas discutir pontos de vista, alargar horizontes,
desmitificar “moralismos torpes”. O que a sociedade apresenta nas telas de todas as
dimensões, são situações irrevogáveis, do tráfico de drogas à corrupção de políticos,
das agressividades banais cotidianas aos assassinatos por motivos fúteis. Como a arte
pode mudar as condições de vida, não para melhor, numa visão idealista, mas em uma
perspectiva ao menos tolerável?"
Neste número, a Revista Palíndromo traz um artigo sobre a "Mostra SEM CENSURA", realizada pelo coletivo artístico NaCasa, em Florianópolis, no final de 2017, após os eventos de censura contra as Artes Visuais, ocorridos em exposições nas cidades de Porto Alegre e São Paulo, com repercussão nacional e internacional. No artigo são apresentadas imagens de duas obras de minha autoria, selecionadas dentre as 580 obras recebidas de 210 artistas inscritos. Abaixo, segue o link do artigo de Anna Karoline de Moraes Silva, intitulado "Mostra Sem Censura".
[1] Disponível em: http://www.revistas.udesc.br/index.php/palindromo/about. Acsso em: 05 jan. 2017.
[2] SILVA, A. K. de M. Mostra Sem Censura. Palíndromo, Florianópolis, v. 9, n. 19, p. 105-120, 2017.