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| Série Bailarinos V "Porque de asas fechadas ninguém voa" Têmpera sobre papel [32 x 44cm] 2010 |
Este espaço é destinado à divulgação da arte em suas múltiplas linguagens, recortes históricos e temas. De forma paralela, apresento aspectos do trabalho que desenvolvo, no Rio de Janeiro.
28 de novembro de 2010
22 de novembro de 2010
15 de novembro de 2010
Notas sobre a palestra JENNIFER DOYLE sobre Arte contemporânea, esporte e gênero, UFRJ/RJ
Na semana passada, participei da palestra da professora Jennifer Doyle (Universidade da Califórnia), na Faculdade de Educação da UFRJ. Na ocasião, a pesquisadora proferiu um discurso sobre arte contemporânea, esporte e gênero [com foco na Teoria Queer]. Doyle interessa-se especificamente sobre Performance e no campo do esporte, por futebol [1]. O foco da palestra foi gênero, performance e futebol feminino. Um ponto nevrálgico da fala da palestrante me fez refletir sobre a ausência do esporte como tema de reflexão na arte contemporânea [apesar de alguns artistas modernos abordarem o esporte e algumas práticas corporais nas suas obras]. No momento do debate com a palestrante, questionei sobre a escassez de trabalhos de arte contemporânea que tematizassem as questões de gênero, utilizando o esporte como foco. Como exemplos dessa escassez, mencionei a Bienal de São Paulo de 2010 e a exposição "Gender Check", ocorrida esse ano com artistas contemporâneos da Europa Oriental que trabalham com a temática de gênero. Jennifer teceu rápidos comentários sobre a manutenção desta temática à sombra por instituições [representadas por museus, galerias etc.], e pessoas envolvidas com a arte contemporânea [curadores/as, galeristas e artisitas], por ser interpretada como desinteressante, menos valiosa ou relevante. Tal interpretação corrobora com o que ocorre, em geral, na área das Ciências Humanas e Sociais. Somente recentemente a História e a Sociologia passaram a reconhecer o esporte como rico suporte para efetuar análises e interpretações macro e microssociais, auxiliando na compreensão de aspectos políticos, culturais e históricos de nossa sociedade. Não raro, entretanto, ainda conheço historiadores e sociólogos que não são bem vistos ao se debruçarem sobre o esporte [geralmente o futebol] enquanto tema de estudo e investigação pelas mesmas razões enumeradas por Jennifer. Como fica a posição da arte contemporânea nesse contexto? Convido os leitores e leitoras que acompanham o Blog a tecerem alguns comentários sobre este tema, que me parece uma lacuna a ser explorada.
[1] http://fromaleftwing.blogspot.com/ Blog organizado pela professora Jennifer Doyle, que aborda, especificamente, as questões de gênero inerentes à participação das mulheres no futebol. No link "labels", é possível encontrar 15 posts onde a pesquisadora tece algumas interpretações em relação a como a Arte Contemporânea vem abordando a questão.
[1] http://fromaleftwing.blogspot.com/ Blog organizado pela professora Jennifer Doyle, que aborda, especificamente, as questões de gênero inerentes à participação das mulheres no futebol. No link "labels", é possível encontrar 15 posts onde a pesquisadora tece algumas interpretações em relação a como a Arte Contemporânea vem abordando a questão.
24 de outubro de 2010
CCBB: metáforas do masculino e feminino no ISLÃ
O Centro Cultural Banco do Brasil (CCBB/RJ), está apresentando a exposição "Miragens". Com 58 obras de 19 artistas islâmicos contemporâneos, provenientes de coleções e galerias norte-americanas e européias, "Miragens" inclui vídeos, pintura, fotografia e objetos.
De forma geral, as obras confrontam os estereótipos que a cultura ocidental construiu sobre a oriental. Destaco, especificamente, alguns trabalhos que tematizam questões relacionadas à identidade masculina, como o mito do "herói", a guerra [violência] e a força física; e à identidade feminina, como o "silenciamento social" das mulheres na cultura islãmica.
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| SENER OZMEN Supermuçulmano |
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| LAILA SHAWA Meninos soldados |
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| KAMEL YAHIOUI Os vigias [em memória de Tahar Djaout] |
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| SHIRIN NESHAT |
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| HALIL ALTINDERE Miragens [Da trilogia Mesopotâmia] |
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| SHIRIN NESHAT |
16 de outubro de 2010
13 de outubro de 2010
O lúdico no brinquedo, na brincadeira, no jogo e no esporte na 29a BIENAL, 5a PARALELA e no MAM/SP
Associado ao brinquedo[1], à brincadeira[2], ao jogo e ao esporte, o “lúdico” tem como característica a espontaneidade, criatividade, alegria, prazer, fruição, presentes em práticas corporais diversificadas. Pode ser interpretado como uma manifestação cultural, inerente ao ser humano [não somente à cultura infantil], estando vinculado às práticas sociais, potencializando a existência humana e a sua comunicação com a realidade. A cultura lúdica tem sido extirpada da infância [e da vida adulta]. Da mesma forma, suas manifestações têm sido “controladas” e “confinadas” a tempos, espaços e práticas legitimadas e associadas ao consumo pela indústria cultural. Como a arte contemporânea pode resgatar a dimensão do lúdico na vida cotidiana [até mesmo no processo criativo]? Visitando a 29a Bienal de Arte Contemporânea e a V Paralela, em São Paulo, causou-me surpresa a presença de alguns trabalhos que utilizaram o brinquedo, a brincadeira, o jogo e o esporte como tema central ou secundário, resgatando um pouco da ludicidade necessária. Seguem as imagens.
[1] Objeto com dimensão material, suporte da brincadeira, que estimula o imaginário.
[2] Ação que a criança desempenha sobre o brinquedo
| Alessandra Sanguinetti, Estados Unidos, 2010 LAS AVENTURAS DE GUILLE Y BELINDA Y EL ENIGMÁTICO SIGNIFICADO DE SUS SUEÑOS |
| Marcelo Amorim, Brasil, 2010 da série INICIAÇÃO |
| Claudio Perna, Itália, 1979 FOTOGRAFIA ANONIMA DE VENEZUELA |
| Lais Myrrha, Brasil, 2010 PÓDIO PARA NINGUÉM |
| Marina Rheingantz, 2010 OBERHOLZ |
| Marcelo Amorim, Brasil, 2010 Da série INICIAÇÃO |
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| Ernesto Neto, Brasil, 2010 DENGO |
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| Ernesto Neto, Brasil, 2010 DENGO |
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| Palle Nielsen, Dinamarca, 2010 O MODELO |
7 de outubro de 2010
Notas sobre "Processo Criativo" III
Criadores fazem algo que inaugure uma nova linguagem e que a sua platéia vai questionar: “-Eu já vi isso?” Ícones que levaram a sua linguagem às últimas conseqüências modificaram a linguagem da área, “sacudindo” as certezas.
Uma carreira demonstra a capacidade de redefinir-se. Pode-se avaliar o impacto da obra de um artista a partir da sua capacidade de “voltar-se para o escuro”, redefinindo-se, valorizando a vulnerabilidade das novas informações na carreira.
O processo de categorização pode tornar-se um bloqueio à criação. Uma obra que resiste à nomeação/classificação prende a atenção e perturba o sistema de categorias, ficando “suspenso entre duas categorias”.
Bons artistas sabem que suas escolhas têm conseqüências. É preciso pensar na intenção e na intenção retroativa [realizada após a experimentação]. O processo criativo não funciona por exclusão de planos previamente construídos, mas por experimentação e retroalimentação. Pressupõe olhar o mundo de forma menos passiva, olhando para o óbvio e enxergando outras possibilidades.
A arte não compete com a realidade, mas deve nos fazer pensar sobre o que nos esquecemos dela.
O criador produz trabalhos que aumentam a espessura do presente pelo processo de “saturação”. Distendem o momento do agora, em detrimento de viver do passado ou projetando o futuro.
Se o artista é incapaz de se distanciar e analisar o seu trabalho, não terá capacidade para crescer e progredir. O criador sente-se confortável em se sentir aquém em algumas áreas, percebendo o quanto ainda pode se desenvolver.
O bom artista expõe seu trabalho como conseqüência do mesmo. Aquele que se esforça no processo de produzir a obra com o objetivo de expô-la, trabalha na ótica da ”finalidade” e não da “conseqüência”.
Pessoas criativas tiveram a “ingenuidade” de pensar que poderiam fazer algo que teria impacto sobre a realidade. Foram curiosas e motivadas intrinsecamente, redefinindo-se em constante processo de acumulação.
6 de outubro de 2010
Notas sobre "Processo Criativo" II
A motivação intrínseca é importante para o ato criativo. O criador deve procurar uma área de atuação que traga significado, entusiasmo e motivação para “fazer a diferença” e provocar mudança na linguagem da área.
Há uma tendência em mantermos o que estamos fazendo no mesmo patamar/padrão até que alguém faça a diferença, provocando a mudança. Na verdade, não fazemos muita coisa porque desistimos ao não confiarmos em nós mesmos e esperarmos a aprovação do olhar do outro.
Durante o processo criativo, há desconforto e infelicidade na maior parte do tempo. A recompensa é o prazer da descoberta. Para isso, deve-se exercitar a "rebelião", recusando-se a repetir todos os dias, as mesmas regras. Acertar sempre seria morte do processo criativo.
Há um momento no qual o artista precisa afastar-se e olhar o seu trabalho de fora, afastando-se da sua excessiva subjetividade, transformando a experiência. Nesse momento, é relevante recorrer ao olhar do outro.
O artista não tem controle sobre os sentidos produzidos pela obra, o que não significa que o artista ou o observador são ruins porque encontram/produzem sentidos diferentes. O leitor é fundamental para o “acontecimento” da obra.
No processo criativo, é preciso uma “faísca” para a produção da nova idéia. Nesse contexto, o olhar do outro e o aleatório são importantes. Ao esgotar o seu repertório, o artista deve fazer novas inserções de idéias, a partir de um processo anárquico de absorção de novas informações. Reinventar-se é importante para continuar criando.
Na arte, ao invés de dar um “grito no escuro” sobre as suas angústias, o artista deve construir uma linguagem pessoal relacionada à obra. Nenhuma arte meramente pessoal é arte. No máximo será uma arte terapêutica, que não terá fôlego para se tornar uma grande arte.
5 de outubro de 2010
Notas sobre "Processo Criativo" I
As notas abaixo listadas são fruto de parte das anotações realizadas em 2009, na ocasião do curso "Processo Criativo", com o professor Charles Watson, na EAV/Pq Lage. Sem o intuito de concordar/discordar das mesmas, as compartilho com os leitores/as para convidá-los/as a refletirem sobre seus próprios processos.
O processo criativo pressupõe a capacidade de transitar entre os pólos objetivo e subjetivo. É preciso “estranhar” o que se está fazendo e dar espaço para a “surpresa” no fazer artístico.
O artista tem êxito quando transforma a linguagem do “eu” numa linguagem universal: a obra “acontece”.
Pessoas com medo têm pensamentos sabotadores. Errar é fundamental, pois dar conta das imperfeições nos faz caminhar. A perfeição é a morte e a instabilidade é importante para produzirmos.
Pessoas curiosas superam as "normas" de seu pensamento com mais criatividade, gerando coisas novas, utilizando/coletando informações no cotidiano, a partir de um processo “anti-entrópico”, onde não há estabilidade; como o desconforto do artista durante o processo criativo.
A pessoa criativa tem capacidade de análise, interpretação, avaliação, curiosidade, experimentação, e da instabilidade constrói coisas novas. O papel do criador é “solucionar problemas” a partir do “desconforto” e da instabilidade.
O processo criativo depende de: 1. uma linguagem simbólica; 2. uma pessoa ou grupo que produz algo diferente nessa linguagem (a coloca em crise); e 3. um grupo de peritos que interpreta e incorpora e endossa o novo.
A pessoa criativa preocupa-se com a linguagem por estar imersa nela. Nesse caso, não produz para a platéia comum, mas para aqueles/as que têm conhecimento específico para "ler" sua obra.
Às vezes, estragamos um trabalho por afetos a questões do trabalho que não são importantes para o todo. O trabalho cria densidade com base na experiência, o que presupõe, também, a possibilidade de sua desconstrução e reconstrução permanentes.
26 de setembro de 2010
23 de setembro de 2010
Cruzando fronteiras e (in)visibilidades
Uma das discussões inerentes aos estudos de gênero tem sido a crítica à relação linear da sociedade heterossexista sobre a relação causal entre sexo biológico > identidade de gênero > identidade sexual [1]. Tal normatividade contribui para que se configure um quadro de preconceito quando homens ou mulheres transpõem fronteiras de gênero, inserindo-se em atividades que a sociedade não associa ao seu sexo biológico. A inserção dos homens na dança é um exemplo desse cruzamento de fronteiras. Ao se inserirem numa área de reserva feminina, são questionados em termos identitários, como se houvesse uma relação causal entre a prática corporal e a construção da identidade sexual.
| Série Bailarinos I "Pausa" Têmpera sobre papel (32x44cm) 2010 |
Os novos trabalhos que apresento no Blog abordam esse cruzamento de fronteiras, de alguma forma, na mesma intenção dos anteriores, nos quais explorei a linguagem metafórica das imagens de jogadores e lutadores. Nesses trabalhos, tenho buscado possibilidades de invisibilidade da imagem, explorando os planos de figura e fundo, o que de certa forma, representa a invisibilidade dos homens que rompem fronteiras inserindo-se nessa área de reserva feminina.
[1] BUTLER, J. Problemas de gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2003.
10 de setembro de 2010
E a luta continua...
9 de setembro de 2010
Série Lutadores: novos trabalhos
8 de setembro de 2010
Luta: um ritual na construção da masculinidade
A vivência de práticas corporais de contato físico como o futebol e as lutas têm sido interpretadas como um 'ritual de passagem' na socialização e transformação dos meninos em homens, 'machos' [1]. Suportar a dor e as lesões são elementos constituintes da identidade masculina, simbolizando a virilidade e honra entre aqueles que buscam ser mais fortes do que os demais na competição esportiva. Nessa arena, lutar é mais do que vencer o oponente. Enquanto verbo que indica combate ou ação a favor/contra algo, 'lutar' ancora sentidos associados à identidade masculina, contribuindo para que a inserção do homem na prática da luta possa ser interpretada como via de construção dessa identidade.
| Série Lutadores I "S/Título" 2010 (Têmpera sobre papel 32x44cm) |
| Série Lutadores II "Queda" (Têmpera sobre papel 32x44cm) |
No processo criativo em andamento, minha investigação tem se debruçado sobre imagens de lutadores em ação. Especificamente a luta turca com óleo, uma espécie de luta greco-romana na qual os lutadores untam-se com óleo de oliva, dificultando a "pegada" do adversário e consequentemente, a queda no solo. A luta com óleo é o esporte mais popular do país e reúne milhares de lutadores no Kirkpinar Oil Wrestling Festival, um evento secular de três dias de duração, que ocorre desde o século XIV, mantendo viva a tradição de homenagear os guerreiros da antiguidade.
[1] DUNNING, E. O desporto como uma área masculina reservada: notas sobre os fundamentos sociais na identidade masculina e as suas transformações. In.: ELIAS, N. A busca da excitação. Lisboa: Difel, 1992, p. 389-412.
Por uma interpretação "aberta" da imagem
Meu processo criativo, então, passou a abordar práticas corporais consideradas de reserva masculina [1], a saber: inicialmente o futebol e posteriormente a luta.
Tenho buscado explorar, a partir da metáfora, a polissemia produzida pela imagem, pois interpreto que não há uma “verdade” ou sentido a priori na linguagem (e na obra do artista), de forma a que a mesma tenha a intenção de dizer “isso ou aquilo” como algo “fechado” [2]. A produção de sentido se dá no dialogismo entre a intenção do autor/leitor (artista/receptor); depende da história de leitura de quem lê (observa a obra) a partir de uma lógica “aberta” e “plural” [3].
Nas artes visuais, esta interlocução, por vezes, se dá pela filtragem do crítico/a ou do curador/a. Sendo assim, apesar do artista ter uma intenção ao produzir a obra, tende a perder o controle sobre a polissemia que a mesma produz a partir da interpretação de seus receptores. Na produção de sentido da obra, deve haver interlocução entre a intenção do artista, as contingências espaço-temporais e as condições de aprendizagem do espectador [4].
[1] DEVIDE, F. P. Gênero e Mulheres no esporte: história das mulheres nos Jogos Olímpicos Modernos. Ijuí: Unijuí, 2005.
[2] ECO, U. Interpretação e superinterpretação. Rio de Janeiro: Martins Fontes, 2005.
[3] DANTO, A. Arte sem paradigma [1994]. Arte & Ensaios. Rio de Janeiro. Ano VII, n. 7, p. 198-202, 2000.
[4] SIMÃO, L. V. Da prática da arte à prática do artista contemporâneo. Concinnitas. Rio de Janeiro. Ano 6, v. 1, p. 142-157, 2005.
7 de setembro de 2010
Arte contemporânea, esporte e identidade de gênero
Na investigação atual, uma das questões que busco problematizar com o trabalho é a reflexão sobre como o esporte pode se configurar, paradoxalmente, como um espaço de culto à masculinidade hegemônica e ao comportamento homofóbico e também de legitimação de práticas sociais homoeróticas [que por ocorrerem na arena esportiva, não são contestadas pela sociedade heterossexista].
Embora a homofobia seja um mecanismo de controle da manifestação de afeto entre homens na sociedade contemporânea, o esporte providencia oportunidades para que eles se socializem e vivenciem situações de intimidade de forma legítima em alojamentos, vestiários, concentrações pré-competições, bares, entre outras situações nas quais há ausência feminina [1].
Nessa arena, a masculinidade heterossexual tende a ser construída coletivamente, a partir da prática de interpretar a homossexualidade e a feminilidade como "não-masculinas" [2] e hierarquicamente inferiores. No universo homossocial do esporte, a negação de qualquer impulso homoerótico é um elemento chave desta elevação da superioridade heterossexual. O esporte moderno é uma instituição genderizada, pois suas estruturas e valores dominantes refletem o medo e a necessidade de uma masculinidade ameaçada. O esporte simboliza a estrutura masculina de poder dos homens sobre as mulheres e finalmente, constitui e legitima uma organização social heterossexista da sexualidade.
O esporte - sobretudo aquelas modalidades consideradas bastiões da masculinidade - deve ser interpretado como instituição social que reflete questões sociais circulantes na sociadade contemporânea. Nesse contexto, como a arte contemporânea [especificamente a pintura] pode levantar questões sobre os mecanismos pelos quais esse paradoxo se manifesta, causando conflitos?
| "Jogadores II" 2010 Acrílica sobre tela 100 x 70cm |
| "Jogadores I" 2010 (Acrílica sobre tela 138x50cm) |
[2] MESSNER, M. A. Power at Play: sports and the problem of masculinity. Boston: Beacon Press, 1992.
EAV 2010.1 > Primeiras "pistas"...
A partir das primeiras observações sobre os trabalhos, busquei delimitar mais o projeto atual de investigação. Hoje estou refletindo como as artes visuais podem explorar as relações entre a identidade de gênero e o corpo na sociedade contemporânea, onde os sujeitos transpõem fronteiras de gênero e inauguram novas masculinidades e feminilidades, subordinadas àquelas hegemônicas.
O processo criativo vem direcionando a investigação para como as práticas corporais ancoram novos sentidos associados a essas identidades numa sociedade patriarcal, onde o esporte têm sido, paradoxalmente, uma instituição que ancora sentidos de uma masculinidade hegemônica e sinaliza a existência de outras masculinidades subordinadas. Ou seja: explorar como práticas corporais, interpretadas como instituições que reproduzem valores sociais circulantes, ancoram características dessa masculinidade “plural” e em (des)construção.
| "Releitura de Alair I" 2010 (Técnica mista 23 x 31cm) |
| "Releitura de Alair II" 2010 (Técnica mista 23 x 31cm) |
O processo se iniciou a partir da confecção de desenhos (com impressão de carbono sobre papel, têmpera e fita adesiva) com vistas a explorar as possibilidades de abordagem do tema e posterior produção utilizando outros mediuns.
| "Não meça altura antes de cair" 2010 (Técnica mista 23 x 31cm) |
"Releitura de Alair III" 2010 (Técnica mista 23 x 31cm) |
EAV 2010.1
Em 2010, ingressei no Módulo avançado de pintura, sob orientação dos professores Ivair Reinaldim e Daniel Senise. Após o período de experimentação em 2009, elaborei um projeto de investigação para direcionar a produção na EAV.
Optei por discutir as questões relacionadas às identidades de gênero e suas relações com o corpo na sociedade contemporânea. A identidade de gênero se constrói na interação de fatores internos, do sujeito; e externos, do meio social [1]; são múltiplas, transitórias e contingentes, com caráter instável, histórico e plural , rompendo a noção de “masculinidade” ou “feminilidade” como identidades fixas [2], pois o sujeito é responsável pela construção de sua identidade em termos de práticas socialmente sancionadas.
Identificamos uma cultura de consumo atrelada ao corpo que o supervaloriza, dimensiona e esquadrinha. No que tange à identidade de gênero masculina, a aparência do corpo contemporâneo ancora valores como virilidade, dominação, hierarquia, força e poder, construindo “anatomias de consumo”, presentes no cotidiano: brinquedos, TV, publicidade, jogos eletrônicos, desenhos e a prática corporal, que servem de material para minha investigação [3].
| "Ônus patriarcal" 2010 (Acrílica sobre tela 140 x 180cm) |
Os primeiros trabalhos de pintura apresentados no Módulo foram concebidos a partir da idéia de contestação da "masculinidade hegemônica", com imagens que abordavam o "ônus patriarcal", no sentido conferido por Bourdieu:
“o privilégio masculino é também uma cilada (...) impõe a todo homem o dever de afirmar (...) a sua virilidade (...) entendida como capacidade reprodutiva, sexual e social, mas também como aptidão ao combate e ao exercício da violência (...) o homem ‘verdadeiramente homem’ é aquele que se sente obrigado a (...) fazer crescer sua honra (...) na esfera pública” [4].
[1] CONNELL, R. W. Políticas da masculinidade. Educação & Realidade. Porto Alegre, v. 20, n. 2, p. 185-206, 1995.
[2] MESSNER, M. A. Power at Play: sports and the problem of masculinity. Boston: Beacon Press, 1992.
[3] FRAGA, A B. Anatomias de consumo: investimentos na musculatura masculina. Educação e Realidade. Porto Alegre, v. 25, n.2, p 135-150, 2000.
[4] BOURDIEU, P. A Dominação masculina. Bertrand: Rio de Janeiro, 1999. p. 64.
A EAV em 2009.2: experimentando
No segundo semestre de 2009, após o curso de “História da Arte Contemporânea”, visitei o MET, MoMA, New Museum e Whitney Museum, além de algumas galerias em Nova Iorque. Esse processo foi fundamental para compreender algumas informações sobre a produção artística relativa à arte moderna e contemporânea, por vezes "abstratas" quando visualizamos as obras impressas em páginas de livros de História da Arte, sem vivenciarmos o impacto da obra sobre o espectador, sobretudo em função de sua dimensão.
Ver in loco trabalhos clássicos de artistas modernos e contemporâneos que admiro, tais como: Duchamp, Man Ray, Oppenheim, Matisse, Picasso, Pollock, Newman, Rauschenberg, Johns, De Kooning, Warhol, Bacon, Baselitz, Hockney, Peyton, Basquiat, Rothko, Hooper, Freud, Kosuth, Beuys, Hesse, Richter, Saville... me fez repensar a pintura e explorar outros materiais, explorando as idéias de “tensão” e “limite” em novos trabalhos.
Sem Título (Técnica mista 30 x 50cm) 2009
"Como anda o seu desejo III" 2009
(Técnica mista 30 x 30cm)
"O que há de mim no outro I" 2009
(Técnica mista 20 x 20cm)
"O que há de mim no outro II"
(Técnica mista 20 x 20cm)
"Infância resguardada" 2009
(Técnica mista 40 x 60cm)
"In memoriam" 2010
(Técnica mista 40 x 60cm)
A EAV em 2009.1: experimentando
Ao iniciar na EAV, em 2009.1, produzi trabalhos "experimentais", sem uma linha de investigação definida. Minha intenção era me reaproximar da pintura, explorando diferentes temas e possibilidades de expressão através da figuração.
Família I - 2009 (Acrílica sobre tela - 130X145cm) |
"Solidão" 2009 (Acrílica sobre tela 90 x 140cm) |
Apresentação pessoal
Minha relação com a Arte iniciou na década de 1980, quando fui inscrito por meus pais em um curso de pintura óleo no ateliê de Consuelo Fabrino, em Curitiba [1985]. No ano seguinte, estudei pintura no ateliê de José Ramon e desenho com Ronaldo Antunes, em Teresópolis, quando interrompi as atividades.
Graduei-me em Licenciatura em Educação Física, me doutorando em 2003, realizando pesquisas na área de Estudos de Gênero no Esporte.
Retomei a pintura na Escola de Artes Visuais do Parque Lage [EAV-RJ] em 2009. Na EAV, ingressei no curso “Pintura II” (João Magalhães) e “História da Arte Contemporânea” (Pedro França), ampliando meus conhecimentos e ingressando numa zona de “desconforto” ao perceber a pluralidade de linguagens que a arte contemporânea possibilita, desde a efervescência das produções em Nova Iorque, nas décadas de 1950/60.
No mesmo ano, ingressei no curso “Processo Criativo” (Charles Watson), tendo acesso ao processo de alguns artistas contemporâneos brasileiros, além de receber informações sobre o processo cíclico de desconforto-criação-estabilidade necessário à produção artística.
Em 2010, ingressei no Módulo Avançado de Pintura (Ivair Reinaldim e Daniel Senise), com o objetivo de direcionar a produção a partir de um projeto de investigação alinhado com os aspectos que venho investigando na carreira acadêmica: os estudos de gênero no esporte.
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